28 Janeiro 2026

Amazon prepara nova rodada de demissões enquanto redireciona bilhões para Inteligência Artificial

A gigante do comércio eletrônico Amazon deve iniciar uma nova fase de cortes em sua força de trabalho já na próxima semana, conforme aponta um relatório exclusivo da Reuters. A medida faz parte de um esforço mais amplo para reduzir o quadro de funcionários em cerca de 30.000 pessoas, dando continuidade ao movimento de reestruturação iniciado no ano passado.

Esta nova etapa é vista como a sequência direta das demissões ocorridas em outubro, segundo fontes familiarizadas com o assunto que preferiram não se identificar. Naquela ocasião, aproximadamente 14.000 colaboradores foram dispensados, o que representou cerca de 4% do quadro corporativo da empresa. A expectativa é que esta segunda onda, que pode começar a partir de terça-feira, afete um número semelhante de funcionários.

Beth Galetti, vice-presidente sênior de Experiência de Pessoas e Tecnologia da Amazon, informou em comunicado anterior que os profissionais afetados teriam um período de 90 dias para buscar recolocação interna. Atualmente, a companhia conta com cerca de 350.000 funcionários corporativos e uma força de trabalho total de aproximadamente 1,56 milhão de pessoas.

O contexto dos cortes e a economia americana

O cenário de enxugamento não é exclusivo da Amazon. Durante a pandemia, a força de trabalho da empresa dobrou para atender à demanda explosiva de consumidores confinados em casa. Nos anos seguintes, no entanto, grandes empresas de tecnologia e varejo precisaram cortar milhares de vagas para realinhar os gastos à nova realidade econômica.

Paralelamente, o mercado de trabalho nos Estados Unidos mostra sinais mistos. O número de norte-americanos que solicitaram auxílio-desemprego subiu levemente na semana passada, embora as demissões no país permaneçam em níveis historicamente baixos, sugerindo um desaquecimento gradual, mas controlado, do mercado laboral.

Andy Jassy, CEO da Amazon desde 2021, tem adotado uma postura agressiva de corte de custos. Em junho, o executivo já havia antecipado que a inteligência artificial generativa reduziria a necessidade de mão de obra corporativa nos próximos anos. Essa estratégia reflete uma troca clara de prioridades: cortar onde é possível para investir pesado onde é necessário.

Investimento massivo em infraestrutura e IA

Enquanto reduz pessoal em certas áreas, a Amazon está direcionando capitais vultosos para expandir sua infraestrutura de computação em nuvem e inteligência artificial. A empresa está investindo US$ 10 bilhões na construção de um campus na Carolina do Norte e comprometeu quantias semelhantes desde o início de 2024 para projetos de data centers no Mississippi, Indiana e Ohio. O objetivo é claro: manter o ritmo frente a outros gigantes da tecnologia que estão avançando rapidamente no setor de IA.

Essa realocação de recursos levanta uma questão pertinente para o mercado financeiro: ainda há espaço para crescimento nas ações da Amazon? Para muitos analistas, a resposta reside não no varejo, mas nos serviços.

Por que o mercado segue otimista

Investidores podem julgar que, com um valor de mercado na casa dos US$ 2,5 trilhões, a Amazon teria pouco espaço para valorização. Contudo, o verdadeiro motor de valor da companhia é a Amazon Web Services (AWS), seu negócio mais lucrativo e peça-chave na revolução da IA.

A AWS é líder no fornecimento de serviços de nuvem para empresas e gerou US$ 11,4 bilhões em lucro operacional no terceiro trimestre — o que compõe 65% do total da companhia. Em uma base neutra de moeda, a AWS registrou um aumento de 20% na receita ano a ano, acelerando em relação aos trimestres anteriores, mesmo enfrentando restrições de capacidade de computação para atender a toda a demanda dos clientes.

Embora a concorrência com o Microsoft Azure e o Google Cloud seja acirrada, o crescimento da AWS sugere que a “maré alta” do setor está levantando todos os barcos. A expansão da capacidade dos data centers deve impulsionar ainda mais esse segmento em 2026.

Fluxo de caixa e avaliação atrativa

Além do crescimento na nuvem, a robustez financeira da Amazon chama a atenção. A empresa gerou US$ 691 bilhões em receita nos últimos 12 meses, convertendo parte significativa desse montante em um fluxo de caixa operacional de US$ 130 bilhões. Esse “poder de fogo” financeiro é essencial para sustentar os investimentos em infraestrutura, incluindo a adição de 3,8 gigawatts de capacidade em data centers para suprir a demanda por ferramentas de IA.

Do ponto de vista de valuation, a ação parece descontada quando comparada ao seu histórico. Uma das métricas favoritas de Wall Street, a relação preço/fluxo de caixa operacional (P/CFO), está atualmente em 19,2. Isso é significativamente abaixo da média de 27 observada nos últimos 20 anos e bem distante do pico de 47 registrado na última década.

A expectativa do mercado é que o fluxo de caixa livre da Amazon salte de US$ 21 bilhões em 2025 para US$ 141 bilhões até 2029. Essa projeção reflete tanto os esforços de gestão para cortar custos e melhorar margens no varejo quanto a migração contínua de dados corporativos para a nuvem — uma tendência que, segundo especialistas, ainda está em seus estágios iniciais. Assim, a combinação de uma estrutura mais enxuta com investimentos estratégicos em tecnologia de ponta sugere que a Amazon se posiciona para retornos atraentes a longo prazo, apesar da turbulência trabalhista momentânea.