Mercados em compasso de espera: o peso da Nvidia, a disparada dos Treasuries e a fervura geopolítica
O mercado financeiro global começou o dia operando com o freio de mão puxado, numa clara postura defensiva enquanto aguarda o grande final da temporada de balanços. Em Wall Street, o clima é de pura expectativa para os números da Nvidia (NVDA), que serão divulgados nesta quarta-feira, logo após o sino de fechamento. Pela manhã, os futuros atrelados ao Dow Jones (YM=F) já amargavam uma queda de 0,3%, enquanto o S&P 500 (ES=F) e o Nasdaq 100 (NQ=F) escorregavam 0,2%.
A fabricante de chips não ostenta apenas o título de empresa mais valiosa do mundo na atualidade; ela se tornou o principal termômetro do trade de inteligência artificial. O desempenho da Nvidia tem o poder de ditar o humor dos investidores em todo o globo, ainda mais agora que seus rivais no setor de semicondutores estão encurtando a distância. O que o mercado realmente espera é que resultados fortes da gigante da tecnologia sirvam como uma boia de salvação, oferecendo algum alívio contra o pânico generalizado com a inflação persistente e as tensões lá fora. Até que esses números saiam, o movimento tem sido de recuo no setor de tecnologia, com as ações devolvendo ganhos recentes.
A conta dos juros está chegando mais cara
O pano de fundo que explica esse nervosismo atende pelo nome de mercado de juros. Uma onda pesada de liquidação varreu o mercado global de títulos, à medida que os investidores reforçam as apostas de que o Federal Reserve pode ser forçado a voltar a aumentar os juros ainda este ano para conter a alta dos preços.
A curva de rendimentos dos títulos do Tesouro americano reflete esse cenário com precisão cirúrgica. O yield da T-note de 10 anos — a principal referência global de custo de dinheiro — bateu a máxima de 16 meses durante a madrugada, encostando em 4,687%. Na ponta mais longa, a surpresa não foi menor: o rendimento do título de 30 anos disparou para 5,198%, um patamar brutal que o mercado não via desde 2007. Com o custo de captação explodindo, o apetite por risco seca rápido, punindo principalmente as ações de crescimento e o tão hypado setor de IA. Tony Sycamore, analista da IG, faz uma leitura bem pragmática do cenário: para ele, o que estamos vendo é, na essência, um movimento de correção após um rali “absolutamente fenomenal”. Segundo o analista, o estrago que os rendimentos americanos estão causando agora atrai todas as atenções e dita o ritmo dos negócios.
O nó no Oriente Médio e a pressão no petróleo
Se o cenário macro já é complicado, a geopolítica joga mais lenha na fogueira inflacionária. A guerra no Irã, hoje um dos principais vetores para a alta dos preços globais, continua sem perspectiva de desfecho. Com o Estreito de Ormuz efetivamente fechado para o trânsito, o mercado de energia sente o tranco. Os futuros do petróleo tipo Brent até cederam um pouco nesta quarta-feira, com leve baixa de 0,5%, mas o barril segue teimosamente acima dos US$ 110, cotado a US$ 110,70.
A retórica em Washington só aumenta a incerteza. O presidente americano Donald Trump voltou a ameaçar o Irã com um ataque militar para os próximos dias caso um acordo não saia do papel — um recuo abrupto apenas um dia depois de declarar que estava adiando uma ofensiva iminente para dar espaço às negociações com Teerã. Do outro lado do globo, as peças do tabuleiro também se movem. Em Pequim, menos de uma semana após receber uma visita de alto escalão do próprio Trump, o líder chinês Xi Jinping sentou-se com o presidente russo Vladimir Putin. O recado da dupla foi direto: é imperativo frear a guerra no Oriente Médio.
Contágio na Ásia e o fantasma da oferta na Coreia do Sul
Nessa tempestade perfeita de juros altos e incerteza global, as bolsas asiáticas amargaram mais uma sessão de sangria. O índice MSCI mais amplo para ações da região Ásia-Pacífico (excluindo o Japão) caiu 0,7%, engatando o quarto pregão seguido no vermelho. O estrago foi pior no Japão, onde o índice Nikkei derreteu 1,5%, marcando seu quinto tombo consecutivo.
Na Coreia do Sul, o KOSPI recuou expressivos 1,7%, puxado por tensões que vão além da macroeconomia. As ações da Samsung Electronics, peso-pesado do índice, caíram 1,4% após o sindicato da empresa confirmar que vai cruzar os braços em uma greve de 18 dias a partir de quinta-feira. É um movimento que ameaça seriamente estrangular o fornecimento global de semicondutores, adicionando mais uma camada de risco à já frágil cadeia de suprimentos da tecnologia mundial.
Na China continental, o índice das blue-chips CSI300 ficou no zero a zero, enquanto em Hong Kong o Hang Seng patinou 0,6%. Todo esse mau humor asiático e americano tem preço, e a Europa já amanheceu precificando o risco: antes mesmo do pregão regular abrir, os futuros da região apontavam para um tropeço de 0,7%. O mercado inteiro, no fim das contas, está prendendo a respiração.